sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Gravadoras desaceleram lançamentos de discos perdidos

MARCUS PRETO
Colaboração para a Folha

Nadando contra a corrente do atual mercado de música, dez álbuns gravados entre 1958 e 1980 por Alaíde Costa, Angela Maria, Beth Carvalho, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, João Nogueira, Paulo Sérgio, Rosinha de Valença e Taiguara são transformados em CD pela primeira vez. Lançados pela EMI, eles chegam às lojas com repertório e projetos gráficos fiéis às versões originais.

20.fev.2009/Pedro Carrilho/Folha Imagem
Músico Charles Gavin, que recupera acervos de gravadoras, comenta crise do mercado
Músico Charles Gavin, que recupera acervos de gravadoras, comenta crise do mercado

Essa linha de edição, que traz para o formato digital títulos que estavam há muito tempo perdidos na era do LP, vem sendo gradualmente freada pelas gravadoras. E beira estacionar. O alerta vem dos principais profissionais que, contratados pelas próprias empresas, têm se dedicado a esse tipo de projeto na última década.

"Comecei a trabalhar com isso em 1998 e, desde então, consegui emplacar reedições em todas as gravadoras, todos os anos", lembra Charles Gavin, 48, baterista dos Titãs e um dos primeiros a garimpar os acervos das companhias de disco. "No ano passado, mesmo com o gancho do cinquentenário da bossa nova, não consegui emplacar nada --e olha que tentei em todas elas."

Gavin lembra que, mais que mero prazer saudosista, a recuperação desses álbuns perdidos oxigena os artistas do presente e prepara a música do futuro. "Tom Zé só passou a ser regravado quando seus discos voltaram em formato de CD. O mesmo vale para os Novos Baianos, João Donato, Marcos Valle...", enumera. "A nova geração de músicos do Brasil só está sendo influenciada por esses mestres porque teve, de novo, acesso a eles. E a gente não pode deixar isso parar."

Marcelo Froes, 42, outro veterano da área, também sentiu a queda. "Os anos de 2002/ 2003 foram os mais ativos para mim. São dessa época os boxes de Zé Ramalho, Fagner, Erasmo Carlos, Nara Leão, Gilberto Gil e Elza Soares", diz. "Diversos outros projetos foram preparados e nunca saíram. Reedições passam por uma questão de política interna, a tal 'vontade de fazer', que independe do interesse comercial."

Devagar e sempre

Para Thiago Marques Luiz, 29, responsável pelos dez títulos que a EMI lança agora, não se trata de descaso das gravadoras. "Elas simplesmente não conhecem o próprio acervo", diz. "Um diretor de marketing não tem obrigação de saber que o primeiro LP da Dalva de Oliveira está inédito em CD e é bacana para o público dela."

Para Jorge Lopes, 50, do marketing estratégico da EMI, o que torna esse tipo de produto pouco viável é uma questão de "tempo na prateleira". "Ainda que os discos não encalhem e acabem sempre se pagando, o giro deles é muito lento", diz. "Estou com esse disco da Dalva na mão agora. Foram fabricados mil. Daqui a dois meses, eu te conto quantos tenho no estoque: serão no mínimo 500."

Outro pesquisador requisitado, Rodrigo Faour, 36, diz que a crise atingiu até os projetos relacionados a artistas de grande apelo popular. "Há anos eu tento relançar todos os álbuns da Simone, mas não consegui até agora. E olha que ela foi a maior vendedora de discos dos anos 80", lembra ele, que conseguiu viabilizar recentemente a caixa "Camaleão", com os 17 álbuns de Ney Matogrosso.

Procuradas pela Folha, as cinco principais gravadoras atuantes no Brasil afirmam que vão continuar relançando material de acervo --só que com mais cuidado.

"Essa história de reedição começou de uma forma apocalíptica, como se o mundo físico fosse acabar e tivéssemos que lançar tudo enquanto havia tempo", diz Fernanda Brandt, 27, da Warner. "Já vimos que não é assim. A indústria está em crise, mas ela não vai acabar. Os catálogos estão sendo usados com mais
moderação. E as coisas devem permanecer assim, devagar e sempre."

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